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Percebendo…

O Rio Grande do Norte, sem dúvidas, vive um período da história de sua segurança pública e de sua atmosfera de paz e ordem, nunca dantes visto ou percebido, enquanto a sociedade potiguar é instada a crer que está recebendo os melhores investimentos e as melhores estratégias, há uma sensação contrária de insegurança e medo.

Como aferir o que está acontecendo? Sob quais parâmetros se deve entender realidade? O fato é que a percepção da realidade em segurança pública varia de acordo com a proximidade que se tem de um evento criminoso, isto é, quem nunca teve algo seu subtraído de forma violenta e vive em um local protegido, tem a sensação de que está em segurança, mas para quem mora ao lado de uma casa que já foi invadida por criminosos, o medo se torna parte integrante de sua vivência.

Ao ampliar essa esfera de sensação para a forma como as pessoas que já estiveram próximas de um evento homicida, a pluralidade de entendimentos vai variar grandemente. Quem mora nas proximidades de onde ocorreu um assassinato, quem já viu ao vivo um corpo estendido no chão vitimado por condutas violentas letais intencionais, quem já teve um parente, amigo ou conhecido que perdeu a vida de forma abrupta pela ação de outro ou outros seres humanos, terá dificuldades enormes de se sentir em paz.

Como deve ser a percepção da realidade das pessoas que já tiveram alguém dentre as 1.610 vítimas de morte matada já ocorridas no Rio Grande do Norte em 2017? Nesta esteira de violência e insegurança, indague-se como deve ser a vida das famílias dos 19 agentes de segurança pública assassinados neste ano? Impossível saber ao certo, principalmente para aqueles que vivem em suas bolhas de segurança, protegidos por tudo aquilo que o poder econômico é capaz de prover.

 

Aferindo…

Dentro da esfera de percepção da realidade, que varia com a proximidade ou distância sentimental ou geográfica de eventos criminosos, os números da violência apresentam uma forma singular e científica de pensar como deve ser a vida de alguém que mora num bairro ou em um município com grande quantidade de crimes.

Esses números, mais que apenas uma contagem de mortos, confrontam qualquer discurso que compare o Rio Grande do Norte com outros estados, que justifique investimentos em ações que não trazem resultados para queM vive desprotegido e à mercê de criminosos, que não possuem meios financeiros de assegurar sua própria segurança e de seus familiares e entes queridos, mas que paga absurdos impostos pelo Estado que, por sua obrigação constitucional, deveria se responsabilizar pela segurança e parar de criar e proferir discursos exculpantes pela ineficácia do trabalho que realiza.

Portanto, à luz do conhecimento científico que é capaz de nos dar a percepção quantitativa e qualitativa da realidade da segurança pública do Rio Grande do Norte, analisaremos dois recortes proporcionais numéricos da situação da violência homicida, situadas no período de 1 de janeiro à 27 de agosto às 8hs da manhã, no Rio Grande do Norte.

 

1 – Os Bairros de Natal

Natal possui 36 bairros distribuídos em 4 zonas administrativas que não possuem estruturas de subprefeituras para lidar com mais proximidade das peculiaridades que cada zona possui, portanto, essa divisão é meramente política e nenhum acréscimo agrega para soluções de problemas, servindo apenas para o entendimento geográfico da capital.

Dos 36 bairros de Natal em apenas 3 (três) não foram registradas ocorrências de letalidade intencional: Salinas, Barro Vermelho e Lagoa Seca, no restante, existe uma variação de 1 caso, em cada um dos 4 bairros com menos registros, até 53 casos, em Nossa Senhora da Apresentação, um bairro com mais de 90 mil habitantes, maior que a maioria dos municípios do estado elefante.

Os cinco bairros mais violentos de Natal estão nas Zonas Norte e Oeste, que além de concentrarem a violência homicida por receberem pouquíssima atenção do poder executivo estadual em políticas de segurança pública, ou pelo menos, devido à sua situação demográfica, não recebem também atenção prioritária do poder público municipal e estadual em ações sociais, estruturais e em outras da gama de necessidades dessas áreas, acumulando vulnerabilidades que tornam esses bairros ambientes propícios para a prática do narcotráfico, crimes contra o patrimônio, cooptação e aliciamento de jovens, e outras práticas delituosas. Vejamos a seguir.

Nossa Senhora da Apresentação, que fica na zona norte, concentra 12,7% da violência homicida ocorrida em Natal, que completou 418 CVLIs (Condutas Violentas Letais Intencionais) na madrugada de 27 de agosto em 2017. Lagoa Azul, outro bairro da zona norte, é o segundo bairro mais concentrador da violência homicida da capital, com uma parcela de 9,1%.

Felipe Camarão, na zona oeste, com 35 mortes matadas em 2017 e 8,4% do número de homicídios.

Voltando para a zona norte, Pajuçara é responsável 6,9% das condutas violentas letais intencionais, seguido das Quintas, com 6,7%, que completam os cinco mais violentos da capital.

Se houvesse uma construção de ações de segurança pública para todos, sem privilegiar bairros que concentram população com maior poder aquisitivo, certamente que as zonas norte e oeste de Natal seriam melhor cuidadas, pois juntas concentram 76,8% das mortes de matadas em Natal, ou seja, das 418 CVLIs ocorridas em 2017, 321 foram nessas duas zonas.

 

2 – Os Municípios TOP 20 da Violência no RN

O tema da escalada da violência é muito profundo, e embora Natal se constitua no epicentro desse fenômeno no RN, em números absolutos observamos 20 municípios que se destacam.

Dos 167 municípios potiguares, 50 ainda não foram palco de condutas violentas letais intencionais em 2017, isso não quer dizer que não foram nos anos anteriores, de fato, se considerarmos os últimos 3 anos, em apenas 11 municípios não ocorreu pelo menos um homicídio no estado.

Nesse Ranking Top 20 de CVLIs, destacaremos os 5 primeiros, como fizemos nos bairros de Natal, para a obtermos um recorte sensível dentro dessa primeira filtragem.

Liderando o ranking das condutas letais intencionais, comumente chamadas de homicídios, Natal, no Leste Potiguar e um dos 12 municípios que compõem a Região Metropolitana, aparece até mesmo pela sua condição de sede estadual e de ser teoricamente polo de oportunidades de trabalho, emprego, renda, educação e outras buscas naturais do homem. Foram 418 mortes matadas, que representam 26% de todos os homicídios praticados no estado.

Na sequência vem outro suposto polo de oportunidades, Mossoró, no Oeste Potiguar, que com seus 155 CVLIs de 2017 concentra 9,6% da violência homicida. Mossoró tem se mantido como o 2º município mais violento do Rio Grande do Norte há bastante tempo, e mesmo experenciando períodos de diminuição, possui uma violência que se endemiza pelo espaço territorial, o mapeamento precário de sua zona rural, a ausência quase completa do Estado.

Retornando ao Leste Potiguar e também à Região Metropolitana, nos deparamos com o destaque da criminalidade homicida no Rio Grande do Norte em 2017: Ceará-Mirim. O município vem sofrendo com ações criminosas que certamente fazem parte do modelo circular ou de retroalimentação migratória provocado pela concentração de políticas públicas de segurança em Natal e Parnamirim, suscetibilizando os outros municípios limítrofes e até mais distantes, mas esse fenômeno foi alertado no artigo: Migração dos CVLIs: De Natal Para Cidades da Região Metropolitana, publicado em outubro de 2016 e que pode ser lido em <http://bit.ly/OBVIOOUT16>.

Ceará-Mirim, em 2017, ultrapassou Parnamirim, município que historicamente vinha sendo o terceiro no ranking. Já ocorreram 111 CVLIs que correspondem a 6,9% de todas as CVLIs do RN.

Encerrando os 5 mais violentos, Parnamirim e São Gonçalo do Amarante surgem como local onde ocorreram 6,2 e 4,9% das condutas violentas letais intencionais do RN em 2017.

Obviamente que é necessário informar que além dos municípios Top 20, todos os outros juntos não reúnem o número de homicídios ocorridos em Natal, e também que, a Região Leste, com seus 936 CVLIs, sozinha concentra 58,1% de todos os CVLIs do estado, numa mostra rápida, mas que apresenta informações necessárias para o direcionamento de ações e estratégias de segurança.

 

Concluindo…

Estamos passando por um período muito veloz de avanços tecnológicos que conferem à nossa sociedade a capacidade de acompanhar ações, destacadamente àquelas relacionadas à segurança pública, e se manter em constantes cobranças de resultados que precisam ser sensíveis a partir de suas experiências humanas com os problemas.

O acesso à informação, um direito legítimo, e as mídias sociais possibilitam a demanda de respostas mais claras e mais perceptíveis aos problemas, por isso, a aferição pública por intermédio da imprensa e aquela feita pela cobrança popular em manifestações nas redes sociais e em eventos públicos, se tornam cada vez mais comuns.

Nessa realidade nova, explicar a ausência de resultados positivos das políticas públicas de segurança deve acontecer por meio de estudos que diagnostiquem e apontem novas soluções. Não se pode manter políticas e estratégias que ao serem aferidas mostram sua incapacidade de êxito. É preciso constante e meticuloso estudo para se auferir resultados satisfatórios.

Em 27 de agosto de 2017, chegamos a 1.610 CVLIs, numa contagem veloz de em média 6 pessoas assassinadas por dia nesse ano. Esse aumento de 26,5% representa 387 vidas perdidas a mais que no mesmo período do ano de 2016, e um acumulado de 53,6% desde que iniciou a atual gestão estadual.

Nestes 2 anos, sete meses e 27 dias, transcorridos 970 dias e restando 491, caso não seja reeleita, na atual administração já aconteceram 5.275 vidas perdidas em condutas violentas letais intencionais, isto é, o número de pessoas necessária para lotar 105 ônibus de transporte interestadual, cuja lotação média é de 50 passageiros sentados, ou lotar quase 25 aeronaves Boeing 737, cuja capacidade é de 215 passageiros.

Mas somente contar o número de pessoas mortas não adianta, é preciso que haja sensibilidade dos gestores em entender como se processam e se ratificam os caminhos da insegurança. Destarte, não contamos cadáveres, nós rastreamos a criminalidade em seus paradigmas e vetores que retroalimentam a violência.

As condutas violentas letais intencionais, as mortes matadas, os assassínios, os homicídios, ou qualquer que seja a nomenclatura que se queira adotar para essa atitude do ser humano de fazer cessar a vida de outro ou de outrem, precisa ser estancada. A violência é autofágica e se alimenta às custas da própria substância que a gera, portanto, as veias abertas da sociedade potiguar não deixarão de verter o sangue de seus cidadãos nascidos ou residentes, e nem de seus visitantes, enquanto não houver um entendimento de que cada vida violenta e intencionalmente interrompida desencadeia um novo ciclo de uma violência interminável.

 

 

REFERÊNCIA

HERMES, Ivenio. Migração dos CVLIs: De Natal Para Cidades da Região Metropolitana: Estatísticas Promotoras de Soluções. Boletim Mensal Obvio, Natal, v. 1, n. 2, p.8-14, 3 out. 2016. Mensal. Disponível em: <http://bit.ly/OBVIOOUT16>. Acesso em: 26 ago. 2017.

 

 

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